Resgate aeromédico da Marinha (EVAM) em Barra do São Lourenço salva mãe e bebê, mas expõe a perigosa inércia na prestação de serviços básicos de saúde a 250 km de Corumbá.
Corumbá, MS – Na tarde de ontem (20), a região da Barra do São Lourenço, quase na divisa entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, foi palco de um drama que terminou em final feliz apenas graças ao aparato militar da Marinha do Brasil. Uma adolescente de 14 anos (identificada como R. C. A. P., de 13 anos no registro) entrou em trabalho de parto prematuro em uma localidade situada a 250 quilômetros da área urbana de Corumbá. Sem postos de saúde equipados ou transporte rápido via Rio Paraguai, a vida da mãe e do recém-nascido dependeu total e exclusivamente de uma operação de Evacuação Aeromédica (EVAM) da Marinha do Brasil.
O relato do atendimento é um retrato da precariedade enfrentada pelos ribeirinhos. A jovem estava deitada em uma rede quando, após fazer uso de um analgésico comum (Dorflex), teve a ruptura da bolsa. O parto ocorreu em solo, na posição de decúbito dorsal, em uma região onde o “médico” mais próximo costuma estar a horas ou dias de distância por via fluvial. O bebê, do sexo masculino, nasceu chorando e iniciou a amamentação ainda no local, sob a supervisão da equipe militar.
A Heroica Ação Militar e a Inércia Política
Embora o sucesso da operação mostre a competência da Marinha e do Corpo de Bombeiros neste e em outros casos semelhantes, o episódio levanta uma questão incômoda que as autoridades parecem ignorar: até quando a vida das populações pantaneiras dependerá do acaso ou da boa vontade das Forças Armadas em ações onde a distância é o principal inimigo? Os 250 quilômetros não justificariam a ausência de uma política pública de saúde permanente para as comunidades tradicionais ou justificaria? A inércia do Governo em um todo à prover postos de saúde de alta resolutividade e sistemas de transporte de emergência eficientes para os ribeirinhos é uma falha de gestão que parece beirar o descaso.
O fato de uma gestante de 13/14 anos que já é algo para se preocupar, estar em uma situação de tamanha vulnerabilidade, sem acompanhamento pré-natal acessível ou orientação médica básica, é o sintoma mais claro de que o “desenvolvimento pantaneiro”, tão pregado em palanques, ainda não navegou Rio Paraguai acima. A integração entre Marinha e Bombeiros é louvável, mas ela não deveria servir de cortina de fumaça para a falta de investimento das autoridades civis que deveriam representar e proteger as classes mais longínquas do nosso imenso pantanal.
Mãe e bebê foram encaminhados à Maternidade de Corumbá após o desembarque no 6º Distrito Naval. Ambos passam bem, mas a pergunta permanece: e se o helicóptero não estivesse disponível?









